Um coletivo preto no Nordeste de Amaralina: poder, negócios e juventudes negras na Bahia

Updated: Nov 21, 2021

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A pandemia trouxe uma grande mudança nas formas de comunicação. Visto que o distanciamento era regra, muitas e muitos de nós tivemos que nos ajustar as novas demandas sociais e se reinventar a partir principalmente das conexões virtuais. Aulas, teatros, shows, lives, tudo isso passou a emergir de forma instantânea como forma de entretenimento, formação e informação onde a internet passou a ser primordial paras nossas comunicações.


Os meios de emprego e renda também se modificaram radicalmente, e a necessidade de informações mais concentradas nas grandes comunidades urbanas como o meu bairro, o Nordeste de Amaralina, passou a ser cada vez mais emergente para informar sobre a vida cotidiana nesse espaço. Os jornais e sites comunitários despontam enquanto serviço quase essencial para se movimentar virtualmente e fisicamente pela comunidade. Nesse sentindo, entendendo a importância de contribuir com o grupo e de fugir das graves estatísticas para os jovens negros no país, o grupo O Que Fazer No Nordeste surge para abraçar esse espaço e desenvolver não somente um jornal comunitário mas uma fonte de renda e de trabalho que emerge na sua fundação através da cobertura de um campeonato de futebol para se tornar uma referência de buscas por cultura e lazer no bairro.


Gentilmente, através de uma chamada de vídeo, eu e os componentes do coletivo tivemos um bate papo bem legal sobre a cronologia de fundamento da página do instagram e os caminhos para essa atividade se tornar um trabalho remunerado, até conversas sobre o futuro da página e como cada integrante se apoia e se vê enquanto parte de um coletivo.


O bairro do Nordeste de Amaralina não tem uma boa recepção em Salvador, a marginalização começa no imaginário alimentado sobre aspectos negativos do bairro. Esse preconceito se traduz em situações como as experienciadas por membros do grupo do O Que Fazer No Nordeste, relacionado a comemoração de casamento de Wadson, onde muitas pessoas de fora da comunidade não compareceram por medo do estigma do bairro, e que os levaram a querer apresentar um outro lado da comunidade: um espaço de lazer, cultura e diversão. Através da persistência dos sonhos, juntamente com o desejo de ajudar no desenvolvimento de uma imagem mais positiva da comunidade, os jovens que compõem o coletivo se juntaram e realizam um lindo trabalho, que inspira muitos outros e serve a comunidade com primor.


Atualmente formado por Dener, Aylana, Amanda, Edson, Wadson, o grupo conversou comigo sobre suas perspectivas relacionadas ao grupo. Para cada um deles, eu consigo perceber pontos de conexão com o grupo bem como pontos de individualidades que compõem e enriquecem o trabalho produzido por eles no Instagram. Sendo um grupo diverso e que preza por essa diversidade, vejo como isso colabora para que a diversidade se transforme em algo para além da palavra, um modo de fazer desse grupo. Há em cada interação a vontade de mudar e a ação para isso, ouvindo diferentes vozes e contada através de diferentes rostos.



Uma palavra muito constante na nossa conversa foi “sonho”. Desde o sonho de mudança da comunidade a potência de realizar os sonhos, como bem trazido no final por Aylana, a ideia do trabalho em família como também foi verbalizado por eles se traduz em um produto final que é compartilhado para muito além dos integrantes. Com uma página no instagram que conta com mais de 7.400 seguidores (@oquefazerna é o IG deles), fazendo ações diversas e dedicando atenção, tempo e dedicação a cada detalhe, é possível ver que a prática desse sonho é tão realizadora como o sonho em si.


Deixo aqui a minha alegria de compartilhar com esses conterrâneos de bairro, o meu agradecimento pela conversa super proveitosa e a amiga, além da disponibilidade de todas e todos, e também o meu coração esperançoso, bem como o dos integrantes do grupo, para que um dia o trabalho da juventude negra periférica no Brasil seja valorizada e reconhecida pela grandeza de seu trabalho e de sua potência, que é abundante por essas terras.


 


A Black collective in the Nordeste de Amaralina: Power Business and Black Youth in Bahia



The pandemic brought big changes in ways of communication. With social distancing as the dominant rule, many of us were forced to adjust to new social demands and reinvent ourselves, mainly through virtual connections. Classes, theaters, concerts, IG lives, these platforms emerged instantly as a form of entertainment, training and information. The internet became essential for our communication.


The means of employment and income for living also changed drastically, and the need for more information in large urban communities like my neighborhood, the Nordeste de Amaralina, became important for information about daily life in our space. Newspapers and community blogs became essential services that moved us virtually and physically through the community. In this sense, understanding the importance of contributing to the community and trying to overcome the violent statistics for young Black people in the country, the group O Que Fazer No Nordeste fulfilled this need and developed, not only a community newspaper and blog, but sources of income and work for other young black people. From its foundation through the coverage of a football championship game in our neighborhood, O Que Fazer No Nordeste eventually become a symbol of culture and leisure in our community, the Nordeste de Amaralina.


In August, the members of O Que Fazer No Nordeste and I had a stimulating conversation about the fundamental chronology of their instagram page (@oquefazerna) and the development of their work into paid employment. We also spoke about the future of their virtual presence and the ways in which members see themselves as part of the collective group.


Nordeste de Amaralina does not have a good reputation in the city of Salvador due to a public imagination fueled by a focus upon negative aspects of the neighborhood, mainly empowered by the media. This prejudice produces situations such as those experienced by members of O que fazer no Nordeste. Wadson, a member of the collective, told me about his wedding celebration, where many people from outside the community did not attend for fear of the neighborhood stigma. This reaction to their community motivated them to present another side of the neighborhood - a space for joy, culture and entertainment. Through the persistence of making their dreams come true, along with the desire to develop a more positive image of the Nordeste de Amaralina community, the young people of the collective have come together to create beautiful work that inspires many others and serves the community with excellence.


Led by members Dener, Aylana, Amanda, Edson and Wadson, the group talked to me about their perspectives of the present and future of O que fazer no Nordeste. Through our conversations, I can see points of collectivity as well as aspects of individuality that constitute and enrich the work they produce on social media. As a diverse group that values ​​their embodied differences, O que fazer no Nordeste is transforming “diversity" into something beyond words - a practice and way of doing. In each interaction, one can notice the will and necessary actions to bring change; action to do so, listening to different voices and telling through different faces.



I’m overjoyed to share space with these fellow countrymen and women in our neighborhood, and I remain grateful for our fruitful and friendly conversation. I left our dialogue with my heart full of happiness and excitement for their work, hopeful that one day the Black youth in Brazil are valued and recognized for the greatness of their being, work and their power -which is abundant in these lands.

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