Black Lives in the Global South Matter - and that’s not negotiable

Updated: Mar 2


Vidas Negras no Sul Global importam - e isso não é negociável

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America Map. / The Image Says: Major Regions Where Captives Disembarked, all years

Arte inspirada na obra de Joaquín Torres-García, "Mapa Invertido da América do Sul" 1944. Art by Brazilian artist Henrique Reis (IG: _reishenrique) A imagem diz: Principais regiões onde os cativos desembarcaram, todos os anos Fonte: slavevoyages.org

Outro dia escrevi a seguinte frase nas minhas anotações após ler um pedaço do livro “os condenados da terra” de Frantz Fanon: “Eu sou Atlântica, o norte não me contempla”. Quando voltei a elaborar sobre essa frase, durante os protestos nos Estados unidos que se espalharam ao redor do mundo sobre a potente fundação do Movimento Black Lives Matter, eu retornei a essas palavras para entender verdadeiramente o que eu pensava sobre ser Atlântica e, mais importante, sobre meus pés fincados no então Sul Global.


Geograficamente falando, no espaço, há uma discussão sobre não necessariamente existir Sul, Norte, sendo essas direções aleatórias que não podemos definir na galáxia. Mas estamos falando sobre relações de poder, poder de baixo para cima, que comanda muitos aspectos da nossa vida desde as invasões coloniais promovidas pelo então Norte. A demarcação desse lugar como alto, superior e que dita de maneira direta ou indireta as movimentações do Sul foram sendo elaboradas para conseguir explorar cada vez mais os recursos, as riquezas e a mão de obra, produzindo um montante inestimável que foi combustível do motor do então “desenvolvimento”, que envolvia genocídios, invasões, destruições, tudo em nome da civilização dos “iluminados do norte”.


Depois da Segunda Guerra Mundial em 1945, a direção do “Norte” mudou drasticamente. Com a Europa devastada pela guerra, emerge um contexto de polarização encabeçado pelos Estados Unidos e pela União Soviética, que mesmo após o fim da Guerra Fria deixaria rastros de polarização que podemos perceber na contemporaneidade.


Como sempre, a luta do Norte era por domínio, por poder. A Revolução Cubana em 1959 acendeu o alerta na potência capitalista estadunidense, que coloca então uma de suas estratégias mais perversas contra a América Latina, ao financiar ditaduras militares por todo continente. Chile, Argentina, Brasil tiveram períodos ditatoriais sangrentos e, quando não pela mão da opressão ditatorial, países como Bolívia e Colômbia estariam imersas na política de Guerra às Drogas, outra tática moldada não para o controle das políticas de drogas, mas para o controle do território, das fronteiras, dos corpos e da perpetuação de um modo de vida pautado pela violência e controlado como marionetes pelo imperialismo estadunidense.



O Brasil, país que mais recebeu pessoas escravizadas do continente africano no mundo, esteve durante esse período imerso em suas próprias batalhas, que majoritariamente envolve problemas de raça, classe e gênero num país que não assume seu passado colonial escravocrata, nem seu passado autoritário ditatorial. O nosso lugar na América Latina, país falante do português, herança da colonização portuguesa, de dimensões continentais e de diversidade nos põe numa situação muito singular em relação aos países vizinhos, mas que não suprime nossas demandas por autonomia e promoção de nossas próprias pautas, visto que estamos desatando um nó de mais de 400 anos.


No ano de 2020, o peso de aguentar mortes de crianças por bala perdida foi demais pra mim. Numa pandemia, onde a ordem era ficar dentro de casa, nem assim elas escaparam da violência generalizada imputada à favela. Ágatha, João Pedro, Rebeca, Maria Alice, jovens vidas levadas e o país estava em inércia, parecia algo comum. Os Movimentos Negros, principalmente de mulheres negras, foram alguns dos poucos que se mobilizaram para chamar atenção de que mortes assim não podem ser vistas como algo na rotina.


No dia 26 de maio, um dia depois do triste assassinato de George Floyd, estadunidense assassinado com o joelho de um policial branco em seu pescoço, os Estados Unidos ferveram em protestos que assim como uma febre, se espalharam pelo globo demandando, mais uma vez, que as vidas negras fossem valorizadas. O movimento “Black Lives Matter” ficou maior do que nunca e, mostrando que a luta pela liberação racial é uma luta global, experienciamos protestos em diversos países, derrubadas de estátuas de colonizadores e várias outras maneiras de demonstrar indignação por um sistema opressivo, tudo isso no meio de uma pandemia.


Mais tarde, na Nigéria, denúncias sobre abuso de poder de um esquadrão especial da polícia chamado SARS (Special Anti Robery Squad) levaram mais uma vez indignação ao mundo. Jovens nigerianos foram mortos simplesmente por levantar sua voz por um país mais justo e sem abusos. A foto de uma bandeira nigeriana manchada de sangue se tornou um triste símbolo de como regimes autoritários desprezam a vida daqueles que lutam pelo fim das injustiças coloniais.


Todo esse meu arrodeio é pra pensar o que o norte significa hoje para nós, povos diaspóricos do Sul. Num momento tão delicado de efervescência global, não deve haver apenas um protagonismo, um representante ou uma direção. A diversidade de pautas dos movimentos negros do Sul tem muito a ensinar e a trocar em formação, estratégias e alianças num momento que devido a acontecimentos passados ainda fazem mais alto as vozes do norte. Pensar porquê as mortes e as opressões em alguns espaços causam menos comoção do que em outros faz parte da caminhada para destruir o racismo e o colonialismo, em busca de autodeterminação, autonomia e alianças. Pensar porque a repercussão do norte atingiu mais que as nossas próprias feridas coloniais é estar atenta aos desdobramentos da mídia em narrar esses acontecimentos, como os de George Floyd e de João Alberto Freitas (Homem negro assassinado num supermercado da rede Carrefour no Brasil) , fazendo o grande motor capitalista do país se alinhar a esses movimentos numa solidariedade cega, uma aliança pelo medo.


Estar atento às direções da bússola diaspórica nos permite enxergar além da barreira linguística, além da barreira das fronteiras, para construir uma solidariedade verdadeira. Uma lição importante para iniciar esse processo é buscar nas intelectuais do passado, como Lélia Gonzalez, inspiração para esses velhos novos passos. Com sua militância para uma política para trazer a Amefricanidade [ RadicalPhilosophy: Amefricanity ] como categoria político-cultural, trazendo diferentes reflexões em camadas profundas, ela nos inspira a criar novos quilombos, novas maneiras de inventar a vida e novas maneiras de celebrar nossas negritudes.


Novamente, as Vidas Negras no Sul Global importam, e isso não é negociável.


Black lives in the Global South matter - and that’s not negotiable


Art inspired by the work of Joaquín Torres-García, "Inverted Map of South America" ​​1944. Art by Brazilian artist Henrique Reis (IG: _reishenrique) The Image Says: Major Regions Where Captives Disembarked, all years Source: slavevoyages.org



The other day I wrote the following sentence in my notes after reading a piece of Frantz Fanon's The Wretched of the Earth: "I am Atlantic, the North does not contemplate me". I went back and contemplated that phrase during the protests in the United States that spread around the world due to the potency of the Black Lives Matter Movement. I returned to those words to truly understand what it meant to be Atlantic, and more importantly, what it meant for me to be in the Global South.


Geographically speaking, there is a debate about the non-existence of a “South” or a “North”; these being abstract directions that cannot sufficiently define the galaxy. But here, we are talking about dominance and power, power from the bottom up, which has commanded many aspects of our lives since the colonial invasions promoted by them from the North. The demarcation of this place as high and superior, and that they directly or indirectly dictate the movements of the South has been amplified for the exploitation of more and more of our resources, our wealth and manpower, producing an inestimable amount that fueled to this so called "development engine"; which involved genocides, invasions, destruction, all in the name of the "northern enlightened people’s” civilization.


After World War II in 1945, the direction of the "North" changed dramatically. With Europe ravaged by war, a context of polarization emerges, spearheaded by the United States and the Soviet Union; which even after the end of the Cold War would leave traces of polarization that we can perceive in contemporary times.


As seen before, the North was thirsty for dominance; for power. The Cuban Revolution in 1959 ignited the warning sound for the American capitalist powers, which then enacted one of its most perverse strategies against Latin America: the financing of military dictatorships across the continent. Chile, Argentina, Brazil, all had bloody dictatorial periods, and though not by the hands of dictatorial oppression, countries like Bolivia and Colombia would be immersed in the “War on Drugs” policy, another tactic shaped not for the control of drugs, but for the control of territory, borders, bodies and the perpetuation of a way of life ruled by violence and controlled by the puppeteering of US imperialism.



Brazil, the country that received the most enslaved African people in the world, was immersed in its own battles during this period, which mostly involves problems of race, racism, class and gender in a country that does not acknowledge its colonial slave-owning and authoritarian dictatorial past. Our position in Latin America as a Portuguese-speaking country, a legacy of Portuguese colonization, places us in a very unique situation in relation to neighboring countries, but that does not suppress our demands for autonomy and promotion of our own agendas; since we are untying a knot that is more than 400 years old.

In 2020, the burden of enduring child deaths from stray bullets was too much for me. In a pandemic, where the order was to stay indoors, they still did not escape the widespread violence attributed to the Favelas in Brazil. Ágatha, João Pedro, Rebeca, Maria Alice, young lives taken and the country was in a state of inertia. It was like kids being killed was something common. The Black Movements, mainly of Black Brazilian Women, were some of the few that mobilized to demand attention - that deaths like this cannot be seen as something normal in our daily life.

On May 26, the day after the painful death of George Floyd, a Black American murdered with the knee of a white policeman on his neck, the United States boiled over in protests that, like a fever, spread across the globe demanding, once again, that Black Lives be valued. The Black Lives Matter movement has become bigger than ever, and it's showing that the struggle for racial liberation is a global struggle. We have experienced protests in several countries, overthrown statues of colonizers and various other ways to show indignation at an oppressive system; all of this in the middle of a pandemic.

Later in Nigeria, reports of abuse of power by a special police squad called SARS (Special Anti Robbery Squad) once again brought outrage to the world. Young Nigerians were killed simply for raising their voice for a more fair country. The photo of a bloodstained Nigerian flag has become a sad symbol of how authoritarian regimes despise the lives of those who fight to end colonial injustices.

All this background explanation leads me to think about what the north means today for us, Diasporic people of the South. In such a delicate moment of global effervescence, there should not be just one leading role, one representative or one direction. The diversity of the agendas of the Black Movements in the South has much to teach and to share in strategies and alliances, unfortunately during a time that, due to past events from colonialism and imperialism, still make the voices from the north louder. Thinking about why death and oppression in some spaces causes less commotion and shock than in others is part of the journey to destroy racism and colonialism in search of self-determination, autonomy and alliances. To think about why the repercussions of the north have reached more than our own colonial wounds in the South is to be aware of the paths of the media in narrating these events. Such as the murder of George Floyd and João Alberto Freitas (a Black man murdered in a supermarket in the Carrefour chain in Brazil), making the country's great capitalist engine align itself with these movements in blind solidarity; an alliance only made because they fear us.

Being aware of the directions of the Diasporic Compass allows us to see beyond the linguistic barrier, beyond the border barrier, to build true solidarity. An important lesson to start this process is to look to the intellectuals from the past, like Lélia Gonzalez, a Brazilian intellectual; looking for inspiration for these old-new steps. With her advocacy for a policy to bring Amefricanity [ RadicalPhilosophy: Amefricanity ] as a political-cultural category, bringing different reflections in deep layers, it inspires us to create new Quilombos*, new ways of inventing life and new ways of celebrating our blackness.

Again, Black Lives in the Global South Matter, and that's not negotiable.

*Brazilian Maroon communities


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