• Lorena Machado

Nossos Mais Velhos: As formas de comunicação ancestrais de Mestre Didi

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Mestre Didi

As estratégias que usamos para resgatar e manter nossas raízes como seres diaspóricos foram muitas, as formas de comunicações se desdobram entre nossos sentidos para nos fazer entender que somos descendentes de um propósito maior do que manda os olhares dos colonizadores. Na arte de Mestre Didi, nascido Deoscóredes Maximiliano dos Santos, é possível enxergar e se conectar a dimensões do sagrado que falam não só para quem segue religiões afro brasileiras mas transparece a beleza e um legado de um povo sobrevivente há 400 anos. Filho de Mãe Senhora, grande Yalorixá baiana, aprendeu desde de cedo sobre o legado da religião e traduziu o que via para livros e esculturas que carregam toda beleza e forma de se descobrir filho da grande mãe África e do legado dos Eguns.


Enquanto arte-escrita, o que mestre Didi apresenta é a possibilidade de aproximação

com uma língua e com uma maneira de pensar o mundo, a cosmovisão que nos foi retirada. Apresentando a língua Iorubá como maneira de conexão com as tradições preservadas aqui, as traduções do Iorubá para o português em um de seus livros de 1946 de nome "Iorubá tal qual se fala" nos permite compartilhar do sagrado segredo com quem vivenciava o terreiro, além de registrar e criar memória em outros escritos os Itãns, contos Yorubá e importantes observações sobre os cultos dos Eguns.


Ode agba arolê - Serpente do Caçador Mítico | Igi Bojuto Onan Meta - A árvore vigia dos três caminhos


Na sua arte- escultura, a aproximação do sagrado com o cotidiano é o que mais me atraiu quando confrontada com suas obras. São instrumentos dos Orixás, formatos da natureza e outros adereços que tomam forma nas mãos do artista para reverenciar quem lhe oferece proteção, direção e propósito. Na única exposição que tive a oportunidade de visitar, no Museu Afro Brasil em São Paulo (2019), era intrigante tentar desvendar as formas da palha e couro manipulados em formas conhecidas mas que ali tinham um significado diferente, era uma incorporação de suas habilidades como humano e sacerdote. Os búzios que em reinos africanos significava riqueza adornavam aos montes os adereços, conferiam uma beleza que prendiam os olhos por muito tempo.


Mestre Didi


Mestre Didi ensina a importância das artes se reinventando em mãos diaspóricas, ensina que esculturas falam e que palavras e contos estão tanto para oralidade e legado quanto para o silêncio e a reflexão. Mantendo uma beleza intelectual, o que mestre Didi compartilha com o mundo em suas obras é um símbolo de ligação de tempo-espaço entre formas artísticas das raízes pretas plantadas na Bahia e se tornando uma grande árvore de frutos vistosos que alimentam nossos olhos, nossa alma e espírito!




Nossos Mais Velhos: The ancestral communication ways of Mestre Didi

Mestre Didi


As Diasporic beings, we employ a diversity of strategies to rescue and maintain our memories. The communication methods unfold between our senses to make us understand that we are descendants from a greater purpose; larger than the eyes of the colonizers’ demand. Within the art of Mestre Did, born Deoscóredes Maximiliano dos Santos, it is possible to see and connect with a sacred dimension that speaks not only to those that follow Afro-Brazilian religions but also shows the beauty of 400 years of survivors. Son of Mãe Senhora, one of the biggest Yalorixá in Bahia, Mestre Didi learned since his early days about the legacy of religion. Mestre Didi transcribed his lived experiences into books and sculptures that carry the beauty of his self-discovery, a recognition that he was a great son of Mother Africa and the legacy of the Eguns.


Through the art of writing, Mestre Didi presents the possibility of growing closer to an African language, to another way of seeing the world - the cosmovision that was taken away from us. Through his use of language as means to connect with preserved traditions, the translation from Yoruba to Portuguese, in his 1946 book Yoruba tal qual se fala, allows us to share the sacred secret of vision from somebody that has experienced the Terreiro (meeting place where the Candomblé rituals occurs). Moreover, he registers and creates memories in other writings such as: the Itãs, tales of Yoruba tradition, and important observations about the Worship to the Eguns.


Ode agba arolê - Serpente do Caçador Mítico | Igi Bojuto Onan Meta - A árvore vigia dos três caminhos


When confronted with his sculpture-art, I was most attracted to his approach of the sacred to everyday life. There are Orixás’s instruments, contours and forms from nature and other props that take shape in the hands of the artist, whose goal is to revere the ones that offer him protection, direction and a purpose. In the only exhibition which I had the opportunity to visit at the Afro Brasil Museum in São Paulo (2019), I was intrigued by his unveiling of straw and leather, familiar materials constructed to evoke new meanings; a physical embodiment of his sacerdotal skills. The cowries, that represent wealth in many african countries, adorned many sculptures, bringing in such beauty that held my eyes for as long I can remember.


Mestre Didi


Mestre Didi teaches the importance of the arts being reinvented in Diasporic hands. He teaches that sculptures can speak to us, and that stories can contribute as much for orality and legacy as for silence and reflection. What Mestre Didi shares with the world through his art, while keeping an amazing intellectual beauty, is a symbol of the time-space connection of the artistic Black roots planted here in Bahia. Through our reverence and intention, this seed of knowledge may grow into a towering fruit tree that feeds our eyes, our soul and our spirit!



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